MULHERES NA CIÊNCIA

Quantas cientistas você conhece? O desafio de meninas e mulheres em STEM

O dia 11 de fevereiro marca o Dia Internacional de Meninas e Mulheres na Ciência, uma data que, para além de celebrar cientistas renomadas, reivindica mais espaço e apoio a mulheres em STEM - acrónimo em língua inglesa para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática. A baixa participação feminina nessas áreas não gera apenas prejuízos sociais, mas também econômicos. Estudos indicam que, na Europa, aumentar a participação feminina em tecnologia pode impulsionar o PIB em um valor de cerca de R$ 3,2 bilhões até 2027.

11/02/2024 09:00 - Modificado há 4 meses
Até os dias atuais, menos de 4% dos Prêmios Nobel em ciências foram concedidos a mulheres. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Ada Lovelace, primeira programadora da história; Alice Ball, desenvolvedora do 1º tratamento para a hanseníase; Hedy Lamar, inventora do sistema precursor do wi-fi; Marie Curie, pioneira em pesquisas sobre radioatividade; Mary Anning, pioneira na paleontologia .

Todas mulheres cientistas dos últimos dois séculos. E o que mudou no mundo desde suas descobertas? Com certeza, muitas coisas. O Muro de Berlim caiu, recordes de Michael Jackson foram quebrados, ombreiras entraram e saíram da moda, um desenvolvimento gigantesco da inteligência artificial, o início de uma nova pandemia.

Porém, mesmo com um avanço significativo dos direitos das mulheres, algo não mudou: meninas e mulheres ainda são minoria nas áreas de STEM, acrónimo em língua inglesa para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática.

De acordo com dados de 2019, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), na publicação “Decifrar o código: educação de meninas e mulheres em STEM”, a lacuna no ensino superior é evidente: somente 30% dos estudantes em carreiras e programas na área STEM são mulheres e até a data da publicação apenas 17 mulheres ganharam o Prêmio Nobel de Física, Química ou Medicina desde de Marie Curie em 1903, em comparação com 572 homens que foram ganhadores.

Dada a relevância do tema, a Unesco implementou, em 2015, o dia 11 de fevereiro como o Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, uma oportunidade para promover, de forma plena e igualitária, o acesso feminino a esta área. 

Mas não apenas a Unesco, que é organização convidada do G20 Brasil, está atenta ao tema. O W20, grupo de engajamento de mulheres do G20 Social, também vêm trabalhando pela pauta. “Incluir mais meninas e mulheres em STEM é vital para enriquecer a inovação e desenvolver soluções tecnológicas mais inclusivas. A diversidade de perspectivas pode levar a avanços que beneficiam toda a sociedade, além de contribuir para a redução das disparidades de gênero no mercado de trabalho e promover o crescimento econômico sustentável”, colocou Camila Achutti, delegada do W20 para mulheres e tecnologia. 

Na Trilha de Sherpas, o grupo de trabalho de Pesquisa e Inovação é coordenado pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que pela primeira vez na história tem uma mulher como ministra, a engenheira elétrica Luciana Santos.

Em evento no último ano, a ministra salientou a importância de projetos de incentivo à mulheres na ciência e citou, como exemplo, o impacto ao Brasil da falta deste incentivo. “Ao perder talentos femininos, o país perde também a diversidade de olhares que enriquece a sua produção científica, comprometendo a excelência da pesquisa científica. Não é só uma questão de igualdade de gênero, mas de excelência”, afirmou Luciana Santos.

Um fato que infelizmente não se limita apenas ao Brasil. Camila, que foi a primeira estudante latina a conquistar o prêmio Women of Vision, em 2015, e está listada pela Forbes como 30Under30 em Tecnologia e Educação, indica que na Europa estimativas sugerem que aumentar a participação feminina em tecnologia no continente poderia impulsionar o PIB em um valor, convertido para reais, de cerca de R$ 3,2 bilhões até 2027. “Além disso, 90% dos empregos futuros exigirão habilidades digitais, portanto, não podemos nos dar ao luxo de deixar mulheres e meninas para trás”, complementou.

Meninas “no mundo da lua”

Se é verdade que os dados são preocupantes, há iniciativas interessantes para mudança de realidade. No Brasil, um projeto é o “Futuras Cientistas”, desenvolvido pelo Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene), que corrobora para o crescimento de jovens de escolas públicas e promove ações para combater as barreiras sistêmicas que impedem uma maior participação feminina nas áreas STEM. Em 10 anos, 70% das integrantes do programa foram aprovadas no vestibular. Destas, 80% escolheram cursos nas áreas de Ciência e Tecnologia.

Em 2022, o projeto “Futuras Cientistas” foi vencedor do Prêmio LED, iniciativa da Globo e Fundação Roberto Marinho Foto: Divulgação/Sergipetec
Em 2022, o projeto “Futuras Cientistas” foi vencedor do Prêmio LED, iniciativa da Globo e Fundação Roberto Marinho Foto: Divulgação/Sergipetec

O MCTI coopera com o Escritório das Nações Unidas para Assuntos do Espaço Sideral (UNOOSA) no projeto “Space4Women”, em tradução livre Espaço para Mulheres, que trabalha pela participação de meninas e mulheres em STEM, com recorte na indústria e na exploração espaciais. Com informações do projeto, mais de 560 pessoas já viajaram para o espaço, mas apenas 11% destas são mulheres. O filme “Estrelas Além do Tempo”, que concorreu ao Oscar de melhor filme em 2017 e é baseado em fatos reais, retrata um pouco desse contexto, em especial para mulheres negras. As personagens retratadas são as cientistas Dorothy Vaughan, Mary Jackson e Katherine Johnson.

Mary Winston Jackson foi a primeira mulher negra engenheira da NASA. Foto: Divulgação/Nasa
Mary Winston Jackson foi a primeira mulher negra engenheira da NASA. Foto: Divulgação/Nasa

O projeto conta com um programa de mentoria, junto a profissionais e líderes da indústria, homens e mulheres, e ao longo da jornada as pupilas podem definir objetivos pessoais e profissionais; aprender como enfrentar e superar desafios de carreira; receber feedback sobre ideias, planos, projetos; aumentar a confiança profissional; melhorar as relações interpessoais; e expandir a rede pessoal e profissional. A edição de 2023 contou com 94 mentores e 150 mentoradas de mais de 65 países de todo o mundo. Meninas que no futuro talvez possam conhecer, no sentido literal, o mundo da lua.

“Se quisermos alcançar a igualdade de gênero, precisamos trabalhar juntos. Tal como outras atividades semelhantes, o “Space4Women” pode ser visto como um “programa para mulheres”, mas a desigualdade de género é um problema social. O envolvimento dos homens em atividades que promovam a igualdade de gênero é fundamental e a sua contribuição para remodelar as normas sociais é necessária”, indicou a representação do programa em comunicado a equipe do G20 Brasil, que destacou a importância do fórum para partilha de soluções práticas e inclusivas, uma vez que o apoio das maiores economias do mundo ao tema podem inspirar outros.

Ada Lovelace, Alice Ball, Hedy Lamar, Marie Curie e Mary Anning, se ainda vivas, e se pudéssemos afirmar por elas, com certeza estariam orgulhosas das iniciativas, e engajadas para que mais meninas pesquisem, descubram e/ou inventem. E o G20 Brasil é parceiro nesse caminho, afinal, ciência é substantivo feminino.