POD20 BRASIL

POD20 Brasil #1 - Oceanos saudáveis

No episódio de estreia do POD20 Brasil, uma entrevista com a Doutora em Biologia Marinha Simone Pennafirme, coordenadora do Oceans 20 (O20), sobre o papel dos oceanos nas agendas globais de clima, energia e meio ambiente. Este é o primeiro ano de funcionamento do O20 como Grupo de Engajamento oficial do G20, e logo sob a presidência brasileira. A inclusão do tema oceanos nas discussões do G20 representa um avanço no sentido de construção de um consenso internacional em torno da preservação desse recurso natural, que exerce papel estratégico na segurança alimentar e na regulação do clima. Abaixo, leia a íntegra da entrevista de Simone Pennafirme ao Pod20 Brasil.

03/07/2024 13:00 - Modificado há 9 dias

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Transcrição

POD20 Brasil - Simone Pennafirme

Carlos Alberto Jr.: Você sabe o que os oceanos têm a ver com o G20? Tudo! Os oceanos têm tudo a ver com o G20. Eu vou citar aqui apenas duas informações. Informação 1: Os países do G20 constituem 45% das linhas costeiras do mundo. Informação 2: 80% das emissões globais de carbono também são de países do G20. E isso porque nem chegamos a falar sobre segurança alimentar e regulação do clima, de como os oceanos são importantes no processo de sequestro de carbono da atmosfera, ajudando a combater essa emergência climática que estamos vivendo. Bom, com isso eu acho que ficou claro porque a situação dos oceanos precisa estar no centro de qualquer debate sobre meio ambiente, em especial nas discussões do G20. E você deve estar se perguntando: afinal, que podcast é esse que começa falando de oceanos, não se apresenta de maneira correta, sem dizer a que veio, o que pretende… Pois bem, você está ouvindo o primeiro episódio do Pod20, o podcast do G20, produzido pela equipe de comunicação do G20 Brasil. Nos próximos episódios você vai ficar sabendo tudo sobre o G20, como surgiu, para que serve e, mais importante, como afeta a sua vida. Nesse episódio de estreia você vai ouvir uma entrevista com Simone Pennafirme, coordenadora do O20, sigla do grupo de engajamento Oceanos 20, e ficar por dentro de toda a discussão sobre o papel central dos oceanos nas agendas globais de clima, energia e meio ambiente. Eu sou Carlos Alberto Jr. e esse é o Pod20. Vamos nessa.

Simone Pennafirme, você é coordenadora do grupo de engajamento Oceans 20, né? O Oceanos 20, que é um dos grupos de engajamento do G20, parte da sociedade civil que debate com as trilhas oficiais, digamos assim, do G20, os temas relevantes na parte de oceanos. Então, a gente vai falar um pouquinho sobre tudo isso, mas, antes, eu queria que você se apresentasse, e depois a gente começa a falar um pouquinho sobre as origens e a agenda do O20.

Simone Pennafirme: Bom… Obrigada, Carlos! Obrigada pelo convite, também, de participar desse podcast. É um prazer falar aqui com vocês. Eu sou a Simone Pennafirme, eu sou doutora em Biologia Marinha, trabalho aqui na Universidade Federal do Rio de Janeiro, eu fiz pós doutorado aqui, e eu sou membro da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, que coordena junto com outros conveners o Oceans 20 durante a presidência brasileira do G20. É um prazer participar durante esse ano aqui do Oceans 20, que é a primeira vez que esse grupo de engajamento é formalizado e tem seu lugar dentro do G20, logo no Brasil, um lugar tão especial com essa Amazônia Azul maravilhosa que a gente tem. Então, é um prazer estar aqui com vocês hoje, e sua disposição para a gente começar esse bate-papo.

Carlos Alberto Jr.: Então, vamos começar pelo começo, que é o Oceans 20, ou Oceanos 20. Como é que ele surgiu? Como é essa articulação internacional, que precisa existir entre os países que fazem parte do G20 até surgir esse grupo de engajamento? Conta um pouquinho essa história do O20 pra gente.

Simone Pennafirme: Perfeito. O O20, o Oceano 20, ou Oceanos 20, ele é um grupo de engajamento que tem como principal objetivo destacar a importância do oceano na economia global. A ideia da necessidade de ter um grupo de engajamento que amplificasse as vozes da comunidade oceânica dentro do G20 começou na Indonésia. A ideia e a proposição foram feitas pelo governo da Indonésia junto com o Fórum Econômico Mundial, de que seria muito relevante e significativa a criação do grupo de engajamento com essa temática. Então, no ano seguinte, na presidência rotativa da Índia, em 2023, ocorreu, então, um diálogo do Oceano dentro do grupo de trabalho liderado pelo Ministério do Meio Ambiente. Então, um dia inteiro só sobre a temática oceânica incorporada dentro dos trabalhos da reunião oficial do G20. Isso já foi um grande marco. Então, na próxima presidência, agora nossa aqui no Brasil, percebeu-se que, de fato, havia esse momento muito interessante de se formalizar o grupo de engajamento Oceanos 20. Então, a presidência brasileira, ela, de fato, inovou; é um legado já da presidência brasileira do G20. A gente já tem isso como certo, é um legado da presidência brasileira, a criação e formalização desse grupo de engajamento Oceanos 20. Então, o Oceanos 20 surge de um esforço já da comunidade oceânica global, durante as duas presidências anteriores, e que culmina, agora, durante a presidência brasileira. Então, ela é uma iniciativa, de fato, sem precedente no âmbito do G20, e que vai unir, então, de fato, as nações-membro do G20, as corporações globais, representantes da sociedade civil, em esforços colaborativos com esse objetivo de harmonizar os interesses econômicos com a preservação e a conservação dos oceanos.

Carlos Alberto Jr.: Essa é uma equação complexa. Então, queria que você falasse qual é a agenda do O20. Como é que vocês estabelecem as prioridades? Eu sei que os grupos de engajamento seguem um pouco a agenda de cada país que está na presidência rotativa. Então, o Brasil tem esses três eixos: de combate à fome, transição energética e combate a essa mudança climática e reforma da governança global. Mas como é que esses três eixos se encaixam nessas prioridades do O20 e como é que você encontra o ponto de equilíbrio entre isso que você mencionou? Como é que você tem desenvolvimento sustentável? E como é que você concilia isso com a economia? Porque são muitos interesses, interesses diversos, regionais, globais. Então, acho que isso aí dá um gancho para você falar um pouquinho qual é essa agenda do O20 e como é que vocês estão fazendo esse trabalho.

Simone Pennafirme: Perfeito. Então, o O20 se estrutura no mesmo modelo dos outros grupos de engajamento, de uma forma geral. Então, durante a presidência brasileira, estabelecemos cinco prioridades que dialogam com as três prioridades da presidência brasileira. Então, são temas que, de alguma forma, são transversais à presidência brasileira e, também, especificamente, as prioridades, tanto do grupo de trabalho de finanças sustentáveis da trilha de finanças, como do grupo de trabalho de meio ambiente e sustentabilidade climática do Ministério do Meio Ambiente. Então, a gente buscou estruturar, de fato, as prioridades do Oceans 20 de forma que a gente conseguisse, mais efetivamente, também produzir recomendações que dialogassem com as prioridades dos grupos de trabalho e das temáticas centrais da presidência brasileira. Então, as cinco prioridades do O20, elas são sobre resiliência e ação climática, saúde e conservação dos oceanos e dos ecossistemas oceânicos e sua biodiversidade, o desenvolvimento de ciência, tecnologia e inovação, promovendo, então, práticas mais sustentáveis, modelos de negócio e de financiamento, mas que levem em consideração, também, uma economia azul justa, equitativa e sustentável; o que não é fácil, mas é justamente esse o nosso papel de estarmos aqui também trazendo essas vozes e essa luz para esses temas que precisam ser levados também sob essa perspectiva, e também a colaboração na governança e nas relações internacionais para, de fato, estreitar os acordos e implementações, no âmbito mais da governança global e multilateral. Então, mecanismos de financiamento para o desenvolvimento sustentável, o aumento da colaboração, do desenvolvimento de capacidades entre os países, Então, a gente está falando um pouco mais sobre transferência de tecnologias, compartilhamento de dados e, principalmente, maior transparência na governança e na gestão dos oceanos. Então, são temas, e, aí, mais especificamente falados, mais sobre o chapéu e o guarda-chuva do planejamento espacial marinho.

Então, a gente tem esses cinco grandes macro temas que a gente vem titulando mais como macro temas do que muito especificamente prioridades, por serem temas mais abrangentes, para que a gente possa colher as recomendações através deles, e que essas recomendações possam dialogar também com as temáticas do Governo Federal. Então, eu destacaria, por exemplo, a prioridade de equidade social e justiça, que traz as vozes principalmente das comunidades tradicionais, comunidades ribeirinhas, povos originários, que precisam também ter suas vozes escutadas e as suas demandas pensadas. Quando a gente coloca essas recomendações para o G20, que é um grande fórum econômico, então, toda e qualquer tomada de decisão que venha a ser feita pelos membros do G20 vai ter um impacto muito significativo sobre essas populações. Então, a gente precisa ter também essa questão muito bem colocada, porque são povos que se utilizam também desses recursos naturais, recursos oceânicos. Então, são temáticas que vão falar sobre a segurança alimentar, muitas vezes. Então, a gente precisa ter esses temas bem colocados. Como você comentou, Carlos, muitas vezes é muito difícil fazer esse balanço entre a economia e a sustentabilidade. E o que a gente entende nesse ponto é que justamente a gente vai trazer um pouco mais dessas vozes da academia, dos povos tradicionais e originários, da sociedade civil organizada, das organizações não governamentais e também do setor privado, que já entende e compreende que é preciso fazer uma mudança, que é preciso que a gente caminhe nessa direção de um oceano mais seguro, sustentável, resiliente, transparente. Enfim, que a gente possa de fato construir o oceano que queremos, como diz o lema da década do oceano da ONU.

Carlos Alberto Jr.: Estamos na década do oceano da ONU, além disso.

Simone Pennafirme: Sim.

Carlos Alberto Jr.: Me diz uma coisa… Você mencionou algo muito interessante: povos originários. E, aí, eu acho que entra um pouco essa questão do nosso pré-conceito que povos originários, indígenas, eles estão lá no meio da floresta, longe do oceano. Mas quando os portugueses chegaram ao Brasil, eles estavam no litoral. Houve um processo, ao longo da história, de fuga. Eles foram indo cada vez mais para o interior, até como forma de sobrevivência. O que você poderia falar mais sobre isso? Como é que o oceano se relaciona com povos indígenas? Existem comunidades de povos indígenas também que se beneficiam do oceano? Fala um pouquinho mais sobre isso.

Simone Pennafirme: Isso é bem interessante, esse ponto, Carlos, porque é importante do ponto de vista da segurança alimentar não esquecer que muitos ecossistemas marinhos são fonte de segurança alimentar de muitos povos tradicionais. Então, por exemplo, a biomassa que é consumida, ela vem de organismos marinhos. Então, catadores de caranguejo, catadores de mariscos, moluscos, toda essa parte vem do ecossistema marinho, como o manguezal, por exemplo. A gente tem também outros povos que se relacionam mais com a pesca. Então, a pesca tradicional também é muito relevante, e, como um contraponto à pesca industrial e não regulamentada e não relatada, é muito importante que a gente traga a necessidade de que os small fisheries, que se diz, o termo, a pequena pesca, a pesca artesanal, tenha mais voz realmente. E é a que traz mais benefícios, não só para a população, que depende dela, mas também para a manutenção daquele ecossistema.

E, aí, a gente começa a falar, então, de um desenvolvimento de alguma forma mais sustentável, e, então, garantia da segurança alimentar, combate à fome e à pobreza, nesse sentido de garantia de segurança alimentar. E, aí, não só a parcela de populações tradicionais, de povos não só originários, mas também populações caiçaras, que também estão envolvidas nesse processo. É muito relevante entender que esses povos, essas populações tradicionais vão ser beneficiadas diretamente a partir de políticas públicas que incluam eles no processo. Isso é muito importante, que a gente tenha essa voz escutada. E, por outro lado, também é muito importante que os movimentos de transição energética que utilizam o oceano como base, e impactam direta ou indiretamente essas populações litorâneas, esse processo de transição energética e de utilização do oceano como um veículo para a transição energética, essas populações também precisam ser incorporadas nesse processo, para que a gente tenha uma transição para uma economia azul e uma transição energética justa, equitativa e sustentável.

Carlos Alberto Jr.: Então, eu queria voltar um pouquinho, para você falar qual é a importância dos oceanos para a vida neste planeta Terra. E, aí, a gente cresce ouvindo que a floresta amazônica é o pulmão do mundo, quando, na verdade, a gente sabe que os oceanos produzem também muito oxigênio. Eu queria que você comentasse um pouquinho qual é a importância de um oceano saudável para que a vida continue. A gente está vendo aquecimento global, enchentes em vários lugares do mundo. Eu sou de uma cidade no interior do Rio de Janeiro, Campos dos Goytacazes, e lá pertinho tem São João da Barra, onde tem o Pontal de Atafona, que quando eu comecei a trabalhar em redação, em 1989, o mar já estava avançando e não parou de avançar. Qual é a importância de oceanos saudáveis para a nossa permanência aqui no planeta Terra?

Simone Pennafirme: É muito boa essa pergunta, Carlos, porque de fato você comentou muitas vezes. Nós não fazemos essa ligação do oceano no nosso cotidiano. Apesar das pessoas que vivem nas cidades litorâneas estarem direta ou indiretamente em contato, mesmo que seja através do prazer contemplativo, de terem a oportunidade de estarem ali na praia ou se utilizarem daquele ambiente como uma forma de subsistência. É importante compreender que o oceano saudável faz com que toda a cadeia de ecossistemas também seja saudável. O Brasil tem uma porção litorânea gigantesca. Como você comentou, é o pulmão do mundo. De fato, foi através da produção do oxigênio de pequenos microrganismos no oceano, que fizeram a composição atual de oxigênio da atmosfera. Então, o oceano tem um papel muito importante na regulação, como eu disse anteriormente, da questão da segurança alimentar, mas o oceano tem um papel muito fundamental na regulação do clima. E eu gostaria de destacar esse ponto, porque estamos vivendo uma emergência climática. Então, o oceano tem esse papel fundamental como regulador do clima. A gente pode ter um parâmetro como a presença de um corpo d'água. Os locais onde não há presença de um corpo d'água são muito quentes durante o dia e muito frios durante a noite, como um deserto, por exemplo, ou como outras regiões, inclusive do próprio interior do Brasil. Brasilia, onde você está agora.

Carlos Alberto Jr.: Aqui em Brasília, isso.

Simone Pennafirme: Exato. No Cerrado, enfim, os locais onde não tem grandes porções de água não tem essa regulação. O oceano tem esse papel global de regulação do clima, de absorção do calor da atmosfera, e esse calor vai sendo regulado. Obviamente que com o aumento da temperatura global, há também um aumento da temperatura média do oceano. Hoje a gente diz que a água do oceano está morninha. Ela aumentou, de fato, bateu o recorde de temperatura recentemente, a temperatura global do oceano. Então, precisa-se ter um olhar sobre o oceano em relação ao clima. Além da temperatura, o oceano também é um grande sequestrador de carbono. Existe a bomba biológica que faz com que o oceano seja um grande sumidouro de carbono atmosférico. Numa situação de não emergência climática, esse processo é auto regulado. Porém, hoje, nessa situação de emergência climática, a quantidade de gás carbônico presente na atmosfera é tão grande, e ela entra de uma forma tão maior no oceano, que isso provoca um processo chamado de acidificação do oceano, que impacta também a biodiversidade marinha. Impacta, por exemplo, organismos que também são economicamente interessantes para o ser humano, como os mexilhões, as ostras, que têm a formação de suas conchas prejudicada. Os organismos marinhos vão ter os seus processos fisiológicos e morfológicos prejudicados durante esse processo de acidificação; principalmente esses organismos que secretam essas substâncias que formam as conchinhas, por exemplo. Então, o oceano traz para a gente uma grande teia de conexões com a atmosfera, com o ambiente marinho em si e com a biodiversidade associada a esse ambiente. Então, o oceano, de fato, é transversal a muitos temas e é muito importante para a manutenção da própria vida. E é muito importante dizer que, dentro do contexto do G20, os países membros do G20 constituem 45% das linhas costeiras do mundo. Olha que interessante. E a relação do oceano com o clima, falando um pouco dessa emissão dos gases, 80% das emissões globais de carbono também são de países membros do G20. Então, toda e qualquer tomada de decisão nessa questão envolvendo mudanças climáticas, descarbonização, transição energética, envolve também diretamente o oceano, devido a esse papel fundamental e significativo do oceano na regulação do clima global.

Carlos Alberto Jr.: Então, deixa eu te fazer uma provocação aqui. É lógico que quando se fala em proteção do meio ambiente, todo mundo é a favor. Só que, na prática, a teoria é outra; há muitos interesses envolvidos. Eu estava olhando o site do O20, que tem um pouco a ver com isso que você falou: o oceano como fonte de soluções para uma economia global estável. Mas, aí, de novo a gente volta. São interesses diversos, complexos, você tem uma questão geopolítica enorme envolvida nisso, que, de vez em quando, inclusive, paralisa os debates, inclusive nas trilhas de finanças e de Sherpas. Como é que vocês tratam essas questões, que tipo de desafio surge nessas conversas? Lógico, vocês estão ali meio no guarda-chuva da sociedade civil e vão levar propostas para o G20, oficial, digamos assim, do que vocês imaginam que deveria ser incorporado aos compromissos que os países assumirão ao final do mandato de cada presidência rotativa, no caso agora a brasileira. E é importante a gente lembrar também que as pessoas se confundem muito. O G20 não decide nada, não vai sair: o G20 decide investir dois trilhões de dólares para melhorar a situação dos oceanos. Não existe isso, o G20 não é para isso. É uma grande concertação em que os países assumem o compromisso de implementar aquilo que eles acordaram, e não necessariamente eles vão cumprir. A gente tem aí, o presidente Lula sempre cita o protocolo de Kyoto, o acordo de Paris. O que vocês estão fazendo para que toda essa mobilização não passe de mais uma carta de intenções? Qual a perspectiva de que o que está sendo discutido, e semana que vem, a gente está gravando isso numa sexta-feira, hoje é dia 28 de junho, haverá a primeira reunião inédita na presidência de um país do G20, que é o encontro dos grupos de engajamento com a trilha de Sherpas, e vocês vão entregar as propostas e espero que sejam incorporadas aos documentos finais. Então, como é que vocês estão lidando com tudo isso aí, de forma que haja uma convergência em todos esses interesses, para que esse encontro não seja mais uma carta de intenções que está na gaveta e ninguém sabe quando será implementada?

Simone Pennafirme: Carlos, esse é um ponto muito significativo e também, como você colocou um desafio, uma preocupação do grupo de engajamento, principalmente por ser um grupo de engajamento novo, é o primeiro ano do grupo de engajamento. Então, existe esse desafio muito latente entre os Conviners, para que, de fato, as recomendações que vêm sendo coletadas durante as discussões, os diálogos do oceano, foi a forma como nós estruturamos o grupo de engajamento, para que essas recomendações, e, volto aqui a fazer um parênteses, são recomendações. Carlos, a gente entende como você pontuou bem, elas são recomendações para que os países membros do G20 incorporem ou não aquelas recomendações durante os seus exercícios de mandato. Então, as recomendações, que nós estamos coletando e produzindo, vêm, também, junto com um conjunto de ações. E, então, essa é uma estratégia que vem paralelamente à produção das recomendações. Então, durante as discussões dos diálogos do oceano, que são proposições dentre aquelas cinco prioridades do grupo de engajamento, são feitos diálogos no âmbito global, especificamente para aquelas temáticas, e, ao final de cada um desses diálogos, é recolhido, então, um conjunto de recomendações, e não só recomendações, a gente pede também que, ao final, sejam feitas também ações diretas para os principais stakeholders da Agenda Oceânica. Então, além dos próprios membros chefes de estado do G20, a gente solicita que saiam, dessas discussões, ações para os demais stakeholders, setor privado, a própria sociedade civil, os principais atores que estão diretamente ligados à agenda oceânica, e no final do processo do O20, a gente vai ter um cone que vai ser composto por esse conjunto de recomendações, mas, também, um plano de ação de 10 pontos principais, para que essas ações possam ser também incorporadas pelos diferentes atores. Para que assim a gente possa, de certa forma, ter alguma efetividade, e não fique só, como você comentou, no campo das recomendações. Então, é um plano de ação também bem direto, bem objetivo, com ações práticas para a comunidade oceânica global.

Carlos Alberto Jr.: E você acha que essas recomendações são factíveis? Lógico que tudo depende de vontade política também. A gente vai vendo aí que as presidências rotativas vão passando, mas os países têm as suas eleições. Então, vou citar o exemplo maior agora, que é a eleição nos Estados Unidos. Você tem um governo Biden que está engajado nas negociações, e em novembro talvez ele não seja reeleito. E, aí, vem o Trump, talvez, um governo republicano com uma outra agenda. E tudo aquilo que foi negociado talvez se perca. Isso vocês também têm no radar, ou também seria politizar demais o debate? Vocês precisam se concentrar? Olha, o que precisa ser feito é isso, independentemente de quem estiver no governo, porque as consequências, como disse, já que ele sabe, as consequências vêm depois. E vão afetar todo mundo.

Simone Pennafirme: Isso é um ponto bem importante e acredito, e a gente tem visto, que as recomendações também vêm numa direção mais de proposição de recomendações no sentido de políticas de Estado, não políticas de governo. Acho que a gente tem uma vertente muito que também fala sobre o papel da academia sobre como a ciência deve ser a base para a tomada de decisão também o binômio ciência política pública. Então é muito importante.

Carlos Alberto Jr.: A ciência como base já é um tema polêmico.

Simone Pennafirme: Esse é um caminho que nós acreditamos que seja realmente muito relevante para que, de fato, nós tenhamos recomendações que possam contribuir para a elaboração e implementação de políticas públicas de Estado e que sejam efetivas. Então, é mais nessa perspectiva mais ampla, também, que a gente vem se colocando à frente dessa coordenação, junto com as entidades e organizações que vem fazendo esse debate através dos diálogos do oceano. Além disso, além das próprias recomendações e do próprio G20 em si, tem um entendimento muito claro da comunidade oceânica, de que o grupo de engajamento Oceanos 20, que foi criado, e já é um legado da presidência brasileira durante o ano de 2024, de ser de fato uma plataforma que integre esses principais atores envolvidos e que também tenha esse movimento de ser, também, uma plataforma que vai se direcionando para os próximos fóruns. Então, tem também um movimento muito de entendimento do grupo de engajamento Oceanos 20 se conectando com as pautas, também, da Conferência da ONU para o Oceano, ano que vem, início, e também para a COP30 aqui em Belém. Então é entender, Carlos, acho que é muito bacana essa sua pergunta, que os processos não se encerram em si mesmos, e, principalmente, o oceano, que transborda, e, aí, aproveitando o jargão, o oceano que transborda diversas temáticas. É um tema muito transversal e é muito relevante, que se tenha essa percepção também de que é um caminho que vai direcionando essa temática aqui agora em 2024. Ano que vem a presidência do G20 vai pra África do Sul e pelas conversas que a gente está tendo com diferentes grupos, que também são de lá, de que o oceano é muito relevante, que deve permanecer dentro do G20. E nessa perspectiva de conexão com esses dois importantes fóruns, também ano que vem. Então, é nesse sentido que as recomendações vêm vindo. Por exemplo, um dos temas que foi amplamente discutido em um diálogo do oceano ,realizado, é a inclusão do oceano dentro das NDC’s, que é justamente o novo estabelecimento de metas ambiciosas pelos países, e falando de uma forma global, não só os países membros do G20, mas de uma forma global, para que eles revejam as suas metas, e, aí, possam colocar de forma mais ambiciosa, para manter pelo menos ali 1,5 grau centígrado para tentar reduzir os efeitos negativos das mudanças climáticas. E incluir o oceano dentro dessa temática, incluir os ecossistemas marinhos como formas não só de mitigação, mas, também, de adaptação aos efeitos das mudanças climáticas nas cidades litorâneas, toda a questão do aumento do nível do mar. Então, ter a percepção de que a temática oceânica também deve estar presente nessa revisão dessas metas que os países devem revisar agora em janeiro. Então, as recomendações elas vêm nesse contexto muito mais amplo, e que transborda, e a gente espera que desague também nesses outros fóruns.

Carlos Alberto Jr.: Muito bem. Só um momento didático. Aqui você mencionou uma sigla. Para quem não conhece, o que é NDC?

Simone Pennafirme: Então… As NDC’s são, de fato, essas metas. Cada país, de acordo com as suas prioridades, de como ele vai fazer isso, mas os países devem estabelecer metas internas de como colaborar para que se mantenha esse aumento da elevação da temperatura global, para que não ultrapasse pelo menos 1,5 grau. Então, os países vão internamente ter seus próprios mecanismos, mas a ideia global é de que essas metas sejam bem ambiciosas, para que a gente possa tentar manter, pelo menos, segurar um pouco, o avanço do aumento da temperatura global.

Carlos Alberto Jr.: Muito bem. Estamos chegando ao final, mas eu queria abordar um tema que eu não sei se está em debate no O20. Na agenda econômico-financeira do G20, tem lá uma proposta de trocar a dívida de países pobres por investimento. Existe alguma coisa nessa linha também, na parte de oceanos? O que você poderia falar a respeito?

Simone Pennafirme: Na parte de finanças, a gente entende muito claramente de que é necessário que sejam feitos investimentos ambiciosos em relação ao objetivo do desenvolvimento sustentável 14, que é o objetivo do desenvolvimento sustentável relacionado à vida marinha. Então, nesse sentido, é muito importante que esses financiamentos venham de fato para, principalmente, os países em desenvolvimento. E a gente sabe que muitos dos países em desenvolvimento precisam receber esse tipo de financiamento para que as ações de adaptação e mitigação, principalmente aquelas que também se relacionam ao oceano, possam ser de fato colocadas em prática e que possam ter alguma ação efetiva. Então é muito importante que esses mecanismos de financiamento também incluam as diretrizes, não só, é claro, direcionadas de uma forma geral para uma transição, para uma economia azul justa, sustentável e equitativa, mas que também incluam aquelas pessoas, aquelas regiões onde nós encontraremos as maiores vulnerabilidades sócio-territoriais. E, aí, fazendo de novo uma conexão com a emergência climática, que é onde a gente tem um peso muito grande dentro do próprio grupo de engajamento, fruto das recomendações que vêm vindo, é o que a gente vem observando, é importante que se leve em consideração que, apesar da mudança climática, da emergência climática, atingir o Globo como um todo, todos os países vão sentir os efeitos. A forma como esses efeitos são sentidos é heterogênea. Então, os países em desenvolvimento vão ter mais prejuízos do que aqueles países em desenvolvimento.

Carlos Alberto Jr.: Olha a transversalidade aí, hein? Racismo ambiental. Os mais pobres sofrem mais.

Simone Pennafirme: Exato, a gente tem que levar isso em consideração, levar em consideração que, apesar da mudança climática, da emergência climática afetar o globo como um todo, de forma homogênea, a forma como ela é sentida é heterogênea. E é preciso levar essa heterogeneidade, essas vulnerabilidades sócio-territoriais, identificar as populações mais suscetíveis aos efeitos negativos na mesa, a gente precisa colocar essas pessoas e essas vozes na mesa. Então, é muito importante que esses mecanismos de financiamento levem em conta essas discrepâncias, essas desigualdades. É fundamental isso.

Carlos Alberto Jr.: Bom, Simone, então, eu queria agradecer a gentileza, a generosidade em compartilhar seu tempo e essas informações todas sobre esse tema tão relevante, e queria deixar um momento final para você fazer algumas considerações sobre o trabalho do O20, como é importante que a sociedade civil se engaje nesse debate, porque os governos sozinhos não fazem nada. E a presidência brasileira, pela primeira vez, tem essa iniciativa inédita de trazer os grupos de engajamento, convidá-los a apresentar propostas que eventualmente possam ser incorporadas às declarações finais. Então, deixo você fazer um comentário final nessa conversa.

Simone Pennafirme: Aproveitar, e agradecer mais uma vez pela oportunidade de falar pelo grupo de engajamento Oceanos 20 no podcast e também congratular a presidência brasileira por trazer os grupos de engajamento mais próximos das discussões. E algo inédito vai acontecer daqui a alguns dias, que é justamente a presença dos grupos de engajamento na reunião com os Sherpas. E, então, uma mensagem final para a comunidade oceânica global, é que continuem se engajando através dos diálogos do Oceano, que é a forma como nós estamos coletando as informações e recomendações para a construção do Comuniquê. Nós iremos coletar essas recomendações até o final de agosto. As inscrições para a proposição de diálogos estão abertas até o final de julho. Então continuem se engajando, entrem no site do Oceanos 20 Brasil e sejam muito bem-vindos para embarcar.

Carlos Alberto Jr.: Aproveita e já dá o endereço do site.

Simone Pennafirme: Isso, https://www.oceans20brasil.org/, Brasil com “s”. E acho que é importante fazer essa grande chamada para esse momento único. Muitas recomendações relevantes oriundas dessas chamadas do Diálogos do Oceano foram incorporadas nesse documento que estará sendo levado agora para a reunião dos Sherpas e também para a reunião com os Deputies de finanças. É uma forma muito estratégica e inteligente de trazer diretamente os principais atores da comunidade oceânica para a mesa de debate através dessas recomendações. Agradeço novamente a oportunidade de estar aqui falando também e de estar lá com o professor Alexandre Turra, coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, que falará aos Sherpas durante a reunião. Um abraço a todos que nos escutam. Obrigada e até a próxima.

Carlos Alberto Jr.: Essa foi a entrevista que eu, Carlos Alberto Júnior, fiz com Simone Pennafirme, coordenadora do Grupo de Engajamento Oceanos 20. Se você gostou, compartilhe com seus contatos nas suas redes sociais, indique para alguém que você acha que pode se interessar pelo assunto. Eu também te convido a acompanhar o site e seguir as redes sociais do G20. Todo dia tem um monte de reportagens, publicações e vídeos interessantes sobre tudo o que acontece no G20. Os links estão nas informações do episódio. Obrigado pela companhia e até o próximo Pod20.

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