G20

Blocos regionais no G20: mais do que números, desafios e construção de consensos

Saiba como a participação da União Europeia e a União Africana no G20 desempenha um papel fundamental na representação e na defesa de interesses coletivos no cenário global

21/01/2024 09:00 - Modificado há 5 meses

Nas negociações e busca de consensos do G20, onde as principais economias mundiais se reúnem para moldar políticas globais, dois gigantes coletivos têm assento à mesa: a União Africana (UA) e a União Europeia (UE). Apesar de representarem, juntos, mais de 80 países, a presença desses blocos regionais vai além dos números, introduzindo complexidades e nuances significativas às discussões e acrescentando camadas significativas de perspectivas e desafios, dada a diversidade de interesses, economias e agendas políticas envolvidas.

Os blocos regionais, como a União Africana e a União Europeia, são alianças de países que se unem para promover cooperação econômica, política e social em suas respectivas regiões. Compostos por nações com interesses comuns, esses blocos visam fortalecer sua posição coletiva no cenário global e refletem a importância de se considerar vozes e interesses de regiões inteiras, em vez de apenas nações individualmente. 

No entanto, diferentemente de países que agem individualmente, a influência desses blocos depende da coesão interna, da capacidade de negociação e do alinhamento de interesses entre seus membros. A União Europeia é membro permanente desde a criação do G20. Já a União Africana participou, em diversas ocasiões, como um membro convidado do Grupo e teve sua aprovação como membro permanente durante a cúpula de Nova Delhi, em setembro de 2023, com forte apoio do Brasil. E agora, durante a presidência brasileira, faz a estreia com esse novo status.

Compostos por nações com interesses comuns, esses blocos visam fortalecer sua posição coletiva no cenário global e refletem a importância de se considerar vozes e interesses de regiões inteiras, em vez de apenas nações individualmente.

Ingresso no G20 em contextos diferentes

Flávio Luís Pazeto, primeiro secretário do Ministério das Relações Exteriores do Brasil e responsável pela coordenação-geral do G20, explica as diferenças históricas e de contexto das participações dos dois blocos. A participação da UE tem forte relação com a própria formação histórica do G20, que nasceu com um viés econômico, com objetivo de ser um fórum para superação das crises financeiras internacionais. 

Segundo Pazeto, “a Europa, do ponto de vista de Estados nacionais é uma fragmentação de diversos atores, de mais de 30 países. Mas, se considerada em conjunto, é o maior bloco comercial do mundo e a União Europeia é a entidade política que melhor representa esse conjunto econômico”.

Pazeto explica ainda que a UE alcançou um estágio avançado de integração econômica e de funcionamento que é uma inspiração para várias partes do mundo. “Se o G20 tivesse em sua composição as maiores economias dos países europeus individualmente, haveria uma fragmentação não desejável e que não transmitiria a mensagem de que se trata do maior bloco econômico do mundo”, pontua. Ele acrescenta ainda que importantes negociações e decisões atualmente só têm validade legal se forem tomadas pela UE e não mais na jurisdição dos estados nacionais.

Já a entrada da União Africana é resultado de uma necessidade de resolução da sub-representação da África no G20, que tinha, até então, apenas a África do Sul como membro permanente. Pazeto explica que “os blocos são diferentes em termos de integração econômica. A União Africana tem um papel mais político, especialmente em lidar com crises no continente. Com a recente criação de uma zona de livre comércio, a União Africana está avançando na integração econômica, embora ainda não tenha alcançado o nível de integração da União Europeia. Mas desempenha um papel muito importante junto com o que eles chamam de organizações sub-regionais na África.”

Membros permanentes têm atribuições específicas

Do ponto de vista prático e imediato Pazeto, destaca que “como convidado, a União Africana, ou qualquer ente convidado, país ou organização, não pode bloquear decisões, que ocorrem no G20 por consenso.  A partir de agora, como membro efetivo, a União Africana poderá fazê-lo, por exemplo. Esse fato traz um empoderamento fundamental”.

Pazeto explica ainda que o Brasil apoia o ingresso da União Africana e defende que os temas da África estejam cada vez mais presentes na agenda do G20: “um primeiro passo foi admitir a União Africana. Qual é o passo da presidência do Brasil? Garantir que temas de interesse da África passem a estar de maneira mais sólida na agenda do G20”, finaliza

A participação de blocos regionais como a União Africana e a União Europeia traz à mesa do G20 uma representação coletiva que transcende números e indicadores populacionais, demográficos, econômicos e sociais. Sua presença destaca a importância de se considerar as realidades de regiões inteiras nas decisões, apesar dos desafios que enfrentam para harmonizar posições internas e influenciar a agenda global. 

Essa abordagem coletiva pode impulsionar discussões sobre desenvolvimento sustentável, comércio justo e outras questões que afetam diretamente os países membros desses blocos. Paralelamente, guarda consonância com as prioridades da presidência brasileira: o combate à fome e à pobreza;  a promoção do desenvolvimento sustentável; e a reforma das instituições de governança global.